Depois do conhecimento livre ter seu ápice no mundo virtual da World Wide Web o outro lado da moeda destacou-se sobre a mesa e evidenciou que, no mundo das ideias livres, a Pseudo-história é divulgada como uma revelação. Em um mundo livre a mentira circula sobre diversos nomes sendo também chamada de “verdade”. Hoje em dia, reafirmar crenças Católicas da idade média dando a isso o nome de Paganismo e negar o Holocausto Judeu são representações da luta contra o imaginário “programa Judaico de destruição do povo ariano” chamado Cristianismo. E se os pobres pagãos, mesmo não acreditando na entidade Satanás, foram postos à fogueira injustamente na idade média, hoje vemos a amargura de grupos que se dizem pagãos e que fazem orações para o diabo – tal como a igreja Romana ensinou na inquisição. Então, para estes indivíduos, as histórias de perseguição dos Cristãos contra os Judeus no império romano não são base para formulação de sequer meia conclusão. Quem diria a perseguição dos Judeus aos Cristãos, bem anterior. Para eles, O Cristianismo e o Judaísmo são um perverso complô. E se o Paganismo original jamais se relacionou com a entidade Satanás temos, atualmente, a infelicidade de ouvir o contrário sem que haja alguma comprovação satisfatória – bibliograficamente comprovada.
Os jovens vão até seus computadores e recebem todo tipo de informação que algum autor consagrou como “verdade”. Nesse ambiente virtual as teorias da conspiração ganham força e os discursos de líderes religiosos leigos sobre religiões alheias sempre acabam na dramática e equivocada relação entre criminalidade e Satanismo. Antes, esses discursos limitavam-se a cultos presenciais. A herança que a igreja Romana deixou – criminalizar o não cristão – é abraçada por Protestantes, Pentecostais, Neopentecostais, Cristãos descomprometidos com sua fé e jovens influenciados por grupos de internet que ensinam pactos com o Diabo.
Hoje qualquer pseudo-intelectual divulga suas teorias sem muitas dificuldades. Grupos surgem aos montes todos os anos, meses e até semanas. Há, porém, uma grande necessidade desses grupos e seus líderes se afirmarem aquilo que chamar mais a atenção facilitando o marketing de sua nova ideia e Satanás sempre figurou como uma boa forma de propaganda. Seja no passado, com a venda de indulgências sob o medo do inferno, ou seja no presente, sob a crença supersticiosa de pactos e aquisição de poderes mágicos – crença que atravessou os séculos. Satanás é um termo que desperta atenção e tem sobre si todo tipo de pensamento depositado.
O Cristianismo Católico com seu conjunto de superstições defendidas na idade média assiste o resultado da Inquisição se arrastar por eras. O mundo que viu o clero Católico extrair, após torturas terríveis, confissões de diálogos com a entidade Satanás contempla uma parcela humana afirmar tais fatos sem a necessidade de uma coação. Esse costume é comumente associado ao Nazismo e a um suposto Satanismo. O suposto em questão varia de cada um desses grupos. Existem algumas diferenças entre os Pseudo-Satanistas que os deixam um pouco afastados. Alguns exaltam o Neopaganismo e desenvolvem teorias esotéricas, apresentam códigos de ética e rituais cerimoniais. Outros, também da corrente esotérica, se dizem Pagãos tradicionais, acreditam em teorias da conspiração, acreditam que o mundo atual é um resultado de um complô Judaico/Cristão e dizem que conversam com Satanás. Este último, por sua vez, demonstra uma dependência do pensamento arcaico Católico e de uma terrível deturpação da filosofia religiosa Yazid. O ambiente da internet ainda proporciona a contemplação desastrosa de grupos supersticiosos baseados em lendas urbanas, músicas fantasiosas e que também fazem proselitismo Nazista. É uma crença baseada no Satanás bíblico. Esses, ao contrário dos grupos Neopagãos, possuem uma linha de pensamento ainda mais rasa. Alguns dos integrantes desses grupos (jovens na maioria dos casos) podendo ser antissemitas ou não. Mas a prática do vandalismo, automutilação e agressões físicas são comuns nesses grupos que descartam um conhecimento mais aprofundado a respeito do que dizem praticar. Acreditam em qualquer coisa que leram na internet mas se afastam sempre de teorias mais complexas, sejam elas verdadeiras ou, como diz Adriano Camargo Monteiro, Esquisoterismos misticóides.
O mundo virtual, comumente usado como ferramenta principal de comunicação entre integrantes desses grupos, funciona como uma máscara. Os pseudônimos são frequentemente usados por membros de grupos Neopagãos Nazistas demonstrando o medo e a covardia daqueles que, sob a desculpa de uma “tradição Satânica”, trocam seus nomes por o de algum deus folclórico. Em uma realidade física esses indivíduos se ocultam e se encolhem em meio as massas que eles atacam virtualmente como se fossem guerreiros Celtas lutando contra a invasão do imaginário programa de destruição da raça ariana.
A realidade Histórica ofusca qualquer linha de pensamento desses grupos. Essa ferramenta não permite o negacionismo do Holocausto Judeu, não permite Satanás figurar como nome próprio de uma entidade e não permite afirmações de que Paganismo consiste em adorar a figura folclórica opositora dos Judeus, Cristãos e Muçulmanos – tão pouco associá-la ao Shaitan dos Yazidis.
A importância de entendermos Satanás como ele realmente é se faz exatamente para quebrar qualquer pilar folclórico apresentado por pessoas que compõem as linhas de pensamento descritas acima. Uma palavra, que em seu contexto original, representa apenas adjetivos e substantivos não pode ser defendida como nome próprio de uma entidade metafísica. Na verdade, Satanás nunca serviu para esse propósito. Ele figura na literatura Judaica, Cristã e Muçulmana com o significado de oposição. O anjo, em um ponto de vista mais comum entre os Cristãos, que se opôs a obedecer um deus supremo e foi condenado. Ele tornou-se um Satanás – opositor, adversário ou obstáculo. Este ponto de vista comum entre os Cristãos é negado por outra parcela sob a alegação de que a bíblia não narra absolutamente nada sobre anjos se rebelarem e serem expulsos. Alguns Teólogos defendem que esse mito foi herdado pelos Judeus durante o cativeiro na Babilônia com a adaptação do mito a respeito de Ahriman – que possuía asas e invadiu o paraíso. No Islamismo, Iblis se recusou ser servo de Adão e foi amaldiçoado passando a ser chamado de Shaitan. O Judaísmo, Cristianismo e Islamismo são culturas que defendem Satanás como condição adquirida após uma condenação e não como um nome próprio. Na cultura Yazid, a oposição de Melek Taus (Shaitan) figura como uma virtude onde ele foi exaltado pelo deus supremo por não aceitar se submeter aos homens. Ele insistiu em obedecer uma ordem anterior à de submissão que dizia para ele jamais servir aos humanos. Perseguir Cristãos e Judeus admitindo a crença em Satanás como entidade expressa dependência de valores destas religiões.
O Satanismo baseia-se na manifestação arquétipa de Satanás justamente por este termo não ser dependente de nenhuma religião para ter significado. Até mesmo a entidade folclórica Satanás é rejeitada por religiões misóginas, Homofóbicas, anti naturais e autoritárias. Nestas religiões Satanás questiona, busca independência e não aceita submissão. Essas características são totalmente discriminadas por essas religiões Monoteístas patriarcais. Então, o termo Satanás, neste contexto, foi usado para descrever a condição de um ser que deu ao homem, como disse Morbitvs Vividvs: “O homem do Éden apenas pastava no paraíso”. Ou seja, nem como personagem folclórico ele se apresenta tão cruel como os líderes das religiões Monoteístas patriarcais. Mas, na realidade – representando como uma entidade, Satanás não existe.
O Satanismo baseia-se na emancipação do indivíduo – responsabilidade, conhecimento de causa e consequência, autopreservação e autoconhecimento. E não foram as religiões Monoteístas patriarcais quem deram a Satanás o significado que ele carrega etimologicamente. Pelo contrário, elas associaram o termo Satanás à figura mais próxima do ser humano em suas literaturas folclóricas. Essa condição, segundo essas crenças, afastam o homem de deus e de sua salvação. Mas devemos observar que essa condição é apenas validada no contexto filosófico/religioso das religiões em questão. A etimologia da palavra é neutra simplesmente dando aspectos de oposição não definindo isso como positivo ou negativo. Sendo assim, a negatividade da condição de Satanás é classificada como negativa com base em um personagem folclórico na Bíblia, Alcorão e Talmude enquanto que, para os Yazidis, ele representa uma atitude positiva de um ser obediente – ainda que, como citado antes, a figura de Satanás no Éden represente o momento em que o homem despertou sua consciência adquirindo independência, dependendo do seu esforço para viver e sujeito às consequências de seus atos – um aspecto positivo onde o homem do Éden, pela primeira vez, desfrutou do livre arbítrio, ainda que condenado posteriormente colocando o livre arbítrio como uma ilusão. Satanás, dentro ou fora das religiões Monoteístas, sendo entidade ou Arquétipo, sempre figurou como sinônimo de busca por independência e questionamento.
As páginas seguintes são atos contra uma linha de pensamento distorcida, mentalidade de rebanho e racista defendida por grupos que louvam o Nazismo, que defendem o conceito distorcido de Politeísmo Celta criado pela igreja romana, que defendem crimes de homicídio em rituais cerimoniais e a ideia de que o Cristianismo foi erradicado pelos Nazistas durante o governo de Hitler. São atos de repúdio ao folclore racista, ao negacionismo do Holocausto Judeu, ao resgate de crenças da idade média e ao Pseudo-Satanismo. São atos de repúdio a ideias que se mostraram fracassadas ao longo dos séculos.
Do fogo para vocês: Atos em nome de Satanás.
O link do ensaio completo será disponibilizado para download em breve.
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